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Teatro-Circo Alegria dos Pobres
Entrevista com Beatriz Tragtenberg
Após quase trinta anos nos separa da criação do Grupo Teatro-Circo Alegria dos Pobres e esta entrevista transcrita abaixo. Bia nome carinhoso de Beatriz Romano Tragtenbergme recebe em seu belo e espaçoso apartmento, no bairro das Perdizes, em São Paulo, para essa tão necessária entrevista, gravada em 4 fitas K7 de 90 e 30 minutos, nos dia 20 e 21 de janeiro de 2000. Foi uma deliciosa experiência onde nossas memórias, muitas vezes, coincidiram com experiências compartilhadas entre os anos de 1974 e 1983 aproximadamente. Resolvi não mexer na maneira pela qual conversamos. Ao deixar todos os hã-hãse os iihs, achei que a entrevista ficaria mais viva e colorida para quem por ventura a ler. A tentativa de minha parte foi a de manter a espontaneidade de uma conversa que até hoje, quando a leio, me traz lágrimas aos olhos...
Fotos (Clique na imagem para ampliar)
              
Wilson: Começa por aí, Bia
Você tinha... Vou deixar aqui... gravando...
Bia: Eu não tinha a possibilidade de poder ter o nosso arquivo. Porque uma das coisas da pedagogia Freinet é você ter tudo muito bem documentado. Essa coisa da documentação é muito importante. Mas eu aprendi foi com o Prestes. E como eu vivia com o Maurício, e a gente estava sempre em contato, sabia tudo que acontecia na política... Numa ocasião, o Prestes foi preso com as cadernetas dele. Eles invadiram lá a sede do PC e arrancaram todas. Pegaram todo mundo. Agora, eu tinha um sobrenome que era um sobrenome
Você sabe quantas vezes nós tivemos problemas com a Censura. E nós tivemos problema com a Censura porque era o meu nome! Porque nós fazíamos um trabalho sobre o Chico Buarque... Lembra aquela senhora que não queria dar, fazer o alvará para nós?
Wilson: Lembro disso...
Bia:
por causa do Chico Buarque? Ela foi à escola e disse: Engraçado... quando eu vim aqui, eu tive a impressão de que o Chico Buarque estava virando aquela esquina ali. E eu disse: A senhora enlouqueceu! (Risos.) É
Lembra disso?
Wilson: Hã-hã
Bia: Era o meu sobrenome. Eu não podia expôr vocês. Vocês tinham uma idade
Nós vivíamos no pior momento do Regime, na maior dureza do regime ditatorial. Começamos o grupo em 74, o período Médici, o período mais bandido que podia existir no Brasil naquela época da repressão
foi o Presidente Médici. Eu estava trabalhando antes na Faculdade São Marcos, dando francês. E o francês estava caindo. Eu podia continuar na São Marcos, se eu quisesse, dando aula de uma outra disciplina, em Comunicação, qualquer coisa. Eu tinha meios de fazer isso. Eu tinha um diploma de Letras. Podia fazer. Podia ficar na área de português e tudo. Mas eu não queria porque na sala de professores nossa, todo o santo dia, de tarde, eu batia com o olho no... que ate hoje é uma das pessoas mais importantes na famosa universidade São Marcos, não é?
na universidade particular, de diplomas, fábrica de diplomas que era naquela época, e que continuam sendo
continuam sendo. Uma droga mesmo.
Wilson: Continuam
Viraram um comércio. Em cada esquina tem uma faculdade.
Bia: Uma droga, isso que são. Porque eles não põem nenhum dinheiro pra pesquisa. É só para o bolso deles. Eu não sei... daqui a pouco onde é que os professores vão aprender? Porque eles estão acabando com as universidades do Estado. Um sociólogo destruindo as próprias universidades onde ele dava aulas! Está destruindo tudo! Tudo eles estão destruindo tudo. As Universidades Federais estão num estado
mesmo a USP. Todas com falta de dinheiro. O Marcelo, em Florianópolis, me falou que eles cortaram a verba de revista estrangeira! E você sabe que para uma pessoa se atualizar, ela precisa de revista estrangeira, não pode se atualizar com livro só! Verba...
Então, eu tinha este problema. Eu não podia registrar muito o nosso trabalho porque ele podia servir como uma... denúncia contra vocês, né? Então eu tinha muito esta preocupação de não tirar fotos, de não escrever muito, de não expôr vocês muito. Eu não gostava muito nem de escrever os nomes, de andar com os nomes
Quando nós começamos o nosso trabalho, a Adib me deu um livro da escola para eu escrever. E nós fomos escrevendo... Lembra-se do Cleber? Quando nós fizemos As Incelenças... aquele livro que a Adib deu era para escrever as ocorrências... tudo... Maravilhoso. Só que a Adib vivia no mundo das fadas. Nós vivíamos no mundo das fadas, né? Porque ela foi eleita e como ela tinha mais disciplina... mais assim, mais cabeça, que os outros professores.... ela queria se aposentar com um trabalho, podendo dizer: Olha, tá aqui o trabalho. Então, ela dava força para os sessenta professores que ela tinha. Porque ela foi eleita. Foi uma coisa incrível, passou despercebido pelo Governo. Nós pegamos uma coisa e descobrimos que podíamos eleger o nosso colega. E nós elegemos a Adib depois do outro que era o Robertão... Você se lembra do Robertão?
Wilson: Lembro.
Bia: Eta sujeito! Mantinha aquela escola em estado de pânico. Primeira coisa que eu fiz foi montar, junto com o Cleber... Ela pegou e juntou-se... Depois que ela foi eleita, ela juntou quem queria trabalhar... Ela disse: Quem quer trabalhar, eu vou dar força. E nós nos juntamos: Nós queremos trabalhar com os estudantes.
O resto do pessoal não queria saber de fazer nada. E eram contra
um trabalho. E dava um trabalho terrível. Depois que acabou a coisa dentro da escola, eles viviam perguntando: Bia, cadê o teu teatro? Eu dizia: Tá fora porque vocês acabaram pondo para fora de tanto reclamar. Reclamar do quê? Não sei. Acho que era uma coisa de disciplina. Não consigo entender até hoje essa coisa do burocrata, do professor burocratizado... ele não consegue entender a amizade entre os professores. Esta barreira que existe entre a escola e a vida, não é? O curriculum escolar, as matérias da escola, a coisa escolar e a vida... É um fosso. Mesmo o Freinet diz isso. Existe um fosso, e neste fosso tem que existir aquela distância entre o professor e o aluno. Eu não agüentava ficar na sala dos professores. Era um horror. Todos os alunos, para os professores, eram bandidos mesmo. Tinha uns queridinhos, mas a maior parte era bandido. Para eles, a melhor coisa da escola era se ela não tivesse alunos. Isso seria a melhor coisa da escola... Você se lembra, né?
Wilson: Você, às vezes, contava isso para gente... O clima...
Bia: A dificuldade. Era um clima danado. Mas a Adib deu força para aquela meia dúzia. Eram o Cleber e eu que queríamos descongestionar a escola... [O Robertão] Aquele homem era tão autoritário que se o aluno pusesse a cabeça para fora da sala de aula para ver se o professor vinha vindo, ele dava um berro tão violento da outra ponta do corredor. Os meninos viviam em estado de pânico, não é? Mas, eu disse: Mas nós vamos descongestionar isso aqui. Aí fizemos um Cordel. Você fazia parte?
Wilson: Do Cordel eu não fazia, não.
Bia: Esse primeiro Cordel foi uma coisa linda.
Wilson: Bia, isso foi uma pergunta que eu sempre quis fazer para você: Por que o Cordel?
Bia: Por que o Cordel? Porque naquele momento...Eu sempre gostei muito de literatura de Cordel.
Wilson: Então foi você quem trouxe essa idéia do Cordel...
Bia: Sim, fui eu. A idéia do Cordel fui eu quem trouxe... Naquele momento o Cordel estava sendo assim valorizado. Você vê que esse período era um período de valorização de cultura brasileira por parte de tudo aquilo que era nosso. Porque a gente não podia abrir a boca, não podia fazer nada. A gente só podia valorizar as coisas que tinha.
Wilson: Exatamente.
Bia: Então, os intelectuais... o movimento intelectual daquele momento estava valorizando a cultura nordestina. Havia muita discussão sobre a cultura popular, não é? Isso dentro evidentemente de toda uma linha de pensamento mais de esquerda. Mais de oposição, digamos, que estava completamente na surdina. Tudo isso acontecia mais fora do oficial. O oficial era o oba-oba, era o Brasil grande, era o Brasil rico... Você se lembra?
Wilson: Lembro.
Bia: Aquele Brasil do oba-oba total e o pessoal na miséria... Foi aí que nós começamos com esse Cordel. E esse Cordel foi lindo porque foi feito rapidamente. Eu deixei a faculdade e voltei em agosto de 74. Eu me lembro porque foi uma opção pessoal minha, refletida. Eu estava fazendo a minha pós-graduação na ECA, e eu estava estudando o Artaud. E eu me lembro muito bem que eu tava na busca do que seria essa coisa do teatro, não é? O que que era realmente uma coisa que valia a pena a gente botar o coração, dentro do Teatro. E uma das coisas que o Artaud dizia é que o Teatro... uma das manifestações mais autênticas do Teatro era a festa popular.
Wilson: Hã-hã...
Bia: Daí coincidiu todas essas coisas do Cordel, da festa popular, sabe?
Wilson: Mas lhe deu um clique, assim...
Bia: É. Me deu.
Wilson: Lendo o Artaud e aí você: Cordel!
Bia: Lendo o Artaud. Eu buscava muito saber isso. E, nessa época, setenta e poucos, eu lia muito Artaud. Eu tenho a obra dele todinha...
Wilson: Teatro e seu duplo...
Bia: Teatro e seu duplo. Todos outros livros dele. Eu tenho a obra dele toda, né? Eu me lembro que existia todo um movimento de renovação da esquerda para chegar no povo. Porque na verdade, como o povo não tinha nada, nada, nada, tudo era negado... Como continua sendo, né? Agora é negado por outras razões. Agora é negado até pela violência que se implantou; que as pessoas têm que viver dentro de casa como se fosse uma guerra civil. Mas até pouco tempo atrás havia muito teatro na escola. Ainda se faz muita coisa...
Wilson: Se faz, Bia?
Bia: Se faz. Isso dissipou todo aquele tabu que existia no Teatro. Tudo isso foi eliminado depois... na Democratização. Depois das manifestações das Diretas, na verdade, que a gente conseguiu uma votação mais pelo voto direto.
Wilson: Participação mais do povo...
Bia: Mais do povo... a coisa foi abrindo, claro. Quando você tem Democracia, você tem a participação e tendo a participação você tem um mundo imenso que se abre. Quando aquilo fica tampado, é um horror. Então, em quinze dias, eu fiz esse Cordel. Estavam, eu me lembro muito bem, a Berê que era minha aluna...
Wilson: A Berê desde o início.
Bia: ...a Silvia e a Diana... Essa foto que você tem da Berê aí, foi a segunda peça que nós fizemos, na verdade.
Wilson: As Incelenças...
Bia: A primeira foram os cordéis...
Wilson: Relâmpago...
Bia: Relâmpago, foi. A gente chamava de teatro relâmpago.Veja, meu trabalho nunca esteve desligado da questão pedagógica. Ele estava sempre ligado. Quando Adib assumiu a diretoria e que ela deu força pra gente, a gente começou a bolar o que é que a gente podia fazer pra descongestionar, pra abrir os horizontes da meninada apesar da Ditadura. Bom, se eles não se tocassem, nós íamos em frente. O que a gente podia fazer, a gente ia, né? Então, o que vamos fazer? Vamos fazer Teatro. Vamos fazer Cinema. Criamos um cineclube. Nós tínhamos uma biblioteca. Lembra-se?
Wilson: Lembro.
Bia: Mexia com tudo lá dentro daquela escola. Eu tinha horas. Eu tinha uma parte de aulas de francês que eram poucas, estava caindo. E as outras horas eram com atividade cultural dentro da escola. E estavam o Cleber, a Marina... Estavam uma porção de outros professores. Mas não formava um grupo de no máximo oito, dez pessoas. Entre os muitos trabalhadores e os simpatizantes eram no máximo uns dez. Os outros cinqüenta a malhar, que eles malhavam e sabiam malhar bem.
Wilson: Eu lembro disso. Voce falava...
Bia: Então, este negócio de descongestionar a escola. Agora, você imagina, a escola tudo amarrado, tudo fechado, tudo de mau humor. Argh...Aquele homem que era tão moralista foi posto fora da escola porque avançou no dinheiro da associação de pais e mestres e porque bulinava as meninas e porque teve relações com uma das meninas... quer dizer, era um sujeito asqueroso realmente, desculpe dizer mas era meu colega, era um horror aquele homem. Depois eu tenho muita raiva dele mesmo porque ele inclusive dedou o Maurício, em 64. Ele foi uma das pessoas que dedou. É. A mim e a Maurício. E ele era meu colega... E eu resolvi ficar na escola porque eu já tava cheia. Onde eu ia tinha aqueles tiras, aquela gente...A São Marcos, por exemplo, era um bando que freqüentava a sala dos professores. Eu não agüentei ficar. Aí, eu digo, eu vou embora pra minha escola. Vou ganhar um terço do que eu ganhava na São Marcos...eu ganhava muito mais, o professor universitário. Vou ganhar um terço, mas eu prefiro. Eu vou lá. Faço minha atividade na escola. Faço um trabalho popular. E vou fazer o meu teatro. Eu tinha acabado de fazer aquele filme com o Plínio Marcos, lembra?
Wilson: Lembro.
Bia: Aí, a Adib deu força pra gente e nós fizemos o tal Cordel.
Wilson: Faleceu, não?
Bia: Faleceu agora, o Plínio. É... Eu estive com ele em agosto. Nosso grupo de teatro que montou esta última peça que eu trabalhei, eles é que estavam fazendo uma peça...
Wilson: Do Marco?
Bia: É.
Wilson: Do Sérgio.
Bia: Sérgio Ferrara. É. Estavam fazendo Barrela do Plínio.Eu só não participei porque só tem homem, né? Então... É... estão em cartaz. É uma peça que voce deve ver.
[Mudança da posição do gravador.]
Wilson: Você estava falando do Barrela que eu tinha de ver...
Bia: Pois é, eu acho que você deve ver. Está em cartaz aí pela periferia. Acho que está num destes teatros de bairros nossos. Bons teatros. Deve estar por aí... E o Plínio Marcos... Nós tínhamos feito aquele filme.
Wilson: É o Barravento, não?
Bia: Não. Não é o Barravento. Não. É um filme da Boca do Lixo, foi. Foi um filme que era uma peça do Teatro Oficina. Do Lauro César Muniz. Que depois como foi feita lá pelo pessoal da Boca do Lixo, eles queriam fazer.. dali pra frente é que se desenvolveu aquele teatro da pornochanchada, daquela coisa. Dali pra frente, foi. Aquele filme fazia parte também já desse início aí. Porque os produtores gostavam de ver o teatro, o filme sendo feito dentro de uma casa só... um monte de gente trepando...Pronto. Era o que eles queriam. Eles eram donos... Mas o diretor era o Fábio Porto; ele queria fazer um trabalho bonito. E ficou bonito o trabalho, não ficou mal. Mas foi muito difícil de sair. E foi exibido muito pouco, aí. Enfim, uma coisa menor. Mas a gente estava trabalhando na escola nessa época. Eu saí da São Marcos e disse: -Eu vou pra lá. E vou ganhar menos, mas eu vou fazer um trabalho decente. Eu não... Quero um trabalho popular. Eu não quero saber de agüentar essa gente aqui, essa São Marcos aqui. Pois é, eles me obrigaram a botar aluno pra fora de sala de aula e botar aluno que não podia fazer prova, não podia ser aprovado se não pagasse. E eles estavam construindo no fundo. E eu disse:- Mas será possível? Eu tive uma formação didática que me impede de assumir uma atitude dessa. Eu jamais vou fazer uma coisa dessa! Eu não vou deixar o menino fazer prova porque ele não pagou?! Não. Você vai resolver isso de outra forma. Tem que existir outra forma aí, né? Aí, eu não pus pra fora. Me rebelei contra isso. E já aquele ano terminava também, quis sair e pronto. Terminou o francês. Não tinha mais francês porque não tinha porque formar gente em francês. O francês estava caindo na escola. Aí eu voltei para escola, eu tinha poucas aulas e fui fazer este trabalho cultural. Com a Adib que foi eleita, por acaso, naquele momento. Então a gente começou a trabalhar. E o Cordel era o primeiro... a primeira manifestação de liberdade dentro da escola. Porque nós montamos em três lugares.(Sorriso) As minhas idéias do Artaud. O Artaud diz que a gente podia fazer teatro em qualquer lugar, não era preciso ter uma palco italiano para fazer teatro. E que a gente podia fazer o teatro aonde bem entender. Foi ele quem descentralizou a cena do teatro mundial. Foi toda uma direção. Ele deu milhões de pistas. Na verdade, ele nunca conseguiu fazer, realizar este teatro dele. Ele era um homem muito doente. E tinha muita dificuldade. Ele era mesmo muito louco. Ele era muito viciado em droga.
Wilson: Eu vi um filme sobre ele...
Bia: Ele tinha um câncer no ânus.
Wilson: Vou ver se eu acho esse filme pra te mandar. Fazer uma cópia dele. Vou ver se consigo. Que mostra exatamente isso...
Bia: Que bonito.
Wilson:... essa loucura... o teatro... a droga... a droga... e a droga...
Bia: E a droga... porque ele dependia da droga.
Wilson: Dependia.
Bia: Ele dependia dela porque senão ele não conseguia viver. Ele tinha muita dor. Então, isso também o transtornava. E ele teve assim mil pistas. Tanto que você vê, hoje em dia, milhões de manifestações artísticas que tiveram muitos encenadores europeus, americanos de tudo quanto é lado a base foi nas idéias do Artaud. A base foi a obra do Artaud...
Wilson: É o que a gente escuta dos encenadores. O Artaud é a Bíblia dos...
Bia: Pois é. Abre muita pista.
Wilson: ...encenadores.
Bia: E pra mim, que estava começando a ler isso tudo. Eu disse:- É isso mesmo. Eu vou fazer... eu vou descongestionar esta escola e juntando ao mesmo tempo o pedagógico com o artístico. Por que é que eu não posso fazer? Tinha muita gente que queria fazer Cordel. Sempre aquela coisa da urgência que nós... Nosso teatro era um teatro que tinha uma urgência constante, né? Em tudo. Era em função do concreto, do imediato, né?
Wilson: Taca purpurina, lembra?
Bia: Taca purpurina.(Risos) Taca purpurina. (Risos)
Wilson:(Risos) Era a nossa frase: Taca purpurina.
Bia: Era... taca purpurina.
Wilson: Você sempre falava isso: Taca purpurina.
Bia: (Risos) Taca aí. E não tem problema. Mas era isso. Então, eu fiz uma loucura realmente. Aquilo era uma coisa, naquela época, impensável. Impensável! Três grupos de teatro. Era muita gente. Eu peguei... eu juntei um monte de Cordel. E eles fizeram uma pequena encenação. Ficava tudo em roda, na entrada da escola. Na porta da escola. A outra era no pátio lá embaixo. Tinha turma que tinha umas salas lá fora. Não sei se você lembra...
Wilson: Eu lembro.
Bia: Tinha alunos que tinham aulas lá. Então, lá embaixo, tinha uma turma que fazia teatro para quem saísse de lá. Tinha um grupo que fazia alguns cordéis. Um outro grupo que fazia o Cordel aqui, na entrada da escola. Eles vinham lá de cima e ficavam bloqueados. E tinha um outro grupo de teatro dos alunos que estavam nas salas lá embaixo e do lado de lá. Então... e ficava no pátio. Então tinha três locais ao mesmo tempo; que essa é uma das coisas que sempre encafifa todo mundo com a questão pedagógica, né? E os meninos diziam: - Mas a gente não viu o lá de cima! Eu digo: Ué! Mas a vida é assim. Se você está aqui agora comigo, é porque você optou aqui agora comigo. É uma questão de opção mesmo. Então, não dá. Ali não tinha como. E a idéia era essa mesmo: era arrebentar com aquele espaço.
Wilson: Você se lembra do portão? Continua a mesma porta do Virgília.
Bia: É.
Wilson: É o mesmo. Lembra-se de que a gente tinha um problema com a chave?
Bia: Lembro. O problema com a chave...
Wilson: Continua a mesma coisa...
Bia: A mesma coisa.(Risos)
Wilson: É o mesmo portão. Toda vez que eu vejo o portão, eu lembro do nosso problema.
Bia: Sempre trancado a sete chaves, né?
Wilson: Sempre. Lembra?
Bia: Lembro.
Wilson: Era o problema da chave.
Bia: Isso começou na Ditadura, viu? Esse negócio de fechar a chave, começou na Ditadura. Nunca era assim. Nunca. Nos meus anos anteriores -- quase quinze anos de Magistério que eu tive antes -- nunca tinha sido assim. É que as coisas foram ficando muito carregadas, sabe? E, então, eu disse:-Bom, nós temos que descongestionar esta história aqui. Vamos fazer. Aí, foi uma delícia. O pessoal que vinha lá de cima deu de cara com aquele... E tinha o Diabo, o Roberto Carlos... E tinha... Iiih, mas era uma festa. Olha, a coisa mais linda. Cada um inventava sua roupa. Cada um inventava seu personagem do Cordel. Eu ensaiei, eu acho que em uma semana. Mas eu não ensaiei tanto. Eu ensaiei coisicas assim. A gente tinha um período entre quinze para as seis e seis e pouco porque começava a aula... seis e pouco. Eram quatro períodos. Não sei quantos. Tinha um monte de períodos na escola, né? Nesse espaço de tempo, eu fazia o ensaio com o pessoal. Era sempre assim. Era rápido. Como eu fazia sempre com vocês. E deixava vir. E deixava... Meu papel não era dar. Meu papel era cutucar, deixar vir e orientar o máximo que eu pudesse. Era esse o meu papel. Que eu acho que é esse o papel do professor: você não pode... não tem grandes coisas a fazer. Dar. Dar matéria e dar não sei o quê. Não dá. Você não dá. O aluno... entra por aqui e sai por aqui se não interessa.
Wilson: Exatamente.
Bia: Não é?
Wilson: É. Mas é mesmo.
Bia: Então, nós fizemos isso. Foi uma coisa. Foi um alívio dentro da escola. Depois nós inventamos uma outra semana de arte que todo mundo podia desenhar. Dava pintura. Aí, não sabiam desenhar, escreveram o nome pela escola inteira. Foi uma coisa, né? E aí começou um clima gostoso. O Virgília tinha, com a Adib, um clima ótimo de trabalho. Um clima de trabalho. Porque a Adib também com a personalidade dela era muito...uma pessoa fina. Uma pessoa que tinha um nível, entende? Apesar de ser professora de Educação Física que, em geral, eles são muito burros e muito bitolados -- ela não era. Era irmã do Abujamra. Ela acompanhava Teatro. Ela era uma mulher interessada. Ela lia muito. Então, ela queria fazer alguma coisa que fosse...
Wilson: que fosse artístico...
Bia: ...que fosse importante, que trouxesse para a escola... Ela até me deu as coisas dela. Ela fez vários campeonatos com aquele futebol. A escola vivia um momento... parecia uma democracia total! Dentro da escola era uma democracia total. Uma puta de uma ditadura lá fora (sorriso)... E, aí, vinha. Os meninos queriam vir. O Natureza lá da... Como é aquele lugar que ele morava? Longe pra chuchu. Depois da vila Mariana. Longe...
Wilson: Era longe. A gente foi uma vez lá...
Bia: Longe... Longe... É.
Wilson: Vimos de alguma viagem...
Bia: De vez em quando, eu ia lá buscar ele quando estava aquele tambor, lá...
Wilson: E das viagens também. Lembra?
Bia: Lembro.
Wilson: Do ônibus.
Bia: Do ônibus...
Wilson: A gente passava por lá. Deixava ele.
Bia: É isso mesmo.
Wilson: Uma vez que a gente deixou...
Bia: Em Santos, eu acho que foi, né?
Wilson: E você abriu porque eu mesmo não era aluno de lá.
Bia: Você também nunca foi, Wilson!!!
Wilson: Meus primos todos, Bia, foram alunos...
Bia: Isso pra mim é uma grande novidade! Pra mim você tinha sido aluno da escola!
Wilson: Eu nunca fui aluno seu nem da escola. Todos meus primos foram.
Bia: Eu, alguma vez, fiz alguma diferença no tratamento com você? Porque...
Wilson: De jeito nenhum.
Bia: Porque na escola era assim: ah, não é da escola, era monstro.(Risos)
Wilson: Não. Não. Nunca teve isso.
Bia: Foi um período muito lindo. O Celso Ferreti... O Celso Ferreti fazia um trabalho educacional muito bonito. Você se lembra do Celso?
Wilson: Lembro. Lembro, sim.
Bia: O Celso é professor aí na PUC. Ele faz muita coisa. De vez em quando, eu ainda encontro com ele. Mas o Celso também ajudava muito. A gente fazia festival de música de montão. De vez em quando, eu encontro com ele... Tinha um rapazinho, um rapaz que era do Morro do Querosene, um rapaz negro que usava umas trancinhas... Ele me disse... Lembra? Eu não sei se você se lembra. Você, eu acho, que esses detalhes você não tinha. Eu não coordenava só o grupo de teatro, do Teatro-Circo. De início, eu fazia um monte de coisas. Eu coordenava o cinema...
Wilson: A biblioteca você também...
Bia:... a biblioteca, o teatro que era o Artur que começou. Eu comecei fazendo este teatro. Depois o Artur veio e trouxe As Incelenças. Porque eu disse:- Eu não vou dar conta de tudo isso. Eu vou ter que precisar de alguém. Aí, eu conheci o Artur que fazia... que vinha de um trabalho de cultura popular. Eu disse: Pronto, é com ele mesmo que vai ficar aqui na escola.
Wilson: De onde você conheceu o Artur, Bia, você se lembra?
Bia: Não me lembro.
Wilson: Da PUC? Maurício? Não?
Bia: Não. Não. Não. Preciso pensar. De onde eu conheci o Artur? Não sei.
Wilson: Eu nunca soube também.
Bia: Sabe que eu não me lembro?
Wilson: Porque quando eu entrei, já estava o Artur. E você.
Bia: Já estava. O Artur..
Wilson: Eu lembro do meu primeiro sábado...
Bia: Ah, é.
Wilson: Eu lembro exatamente. Eu vou te falar. Foi um exercício que a gente fez naquelas salas lá embaixo.
Bia: Sim.
Wilson: Tinha a escada e tinha uma escondida assim. Lembra?
Bia: É.
Wilson: Então, eu lembro que era um exercício assim: nós todos ficamos fora no pátio e uma pessoa, não sei se era você ou o Artur -- ou só o Artur -- dentro da sala. Então, ele escolheu uma pessoa do grupo e entrou com ele. A gente não sabia o que estava acontecendo lá dentro. Depois, um por um foi chamado. Só que dentro da sala, as pessoas que estavam lá, começavam a imitar aquela que entrava. Você se lembra deste exercício?
Bia: Ah! É o exercício do espelho.
Wilson: Do espelho.
Bia: Eu fiz isso muito. Muito.
Wilson: E a gente começava a chorar...
Bia: Este exercício é fantástico.
Wilson:... e a gente começava a pular... Mas por que é que você está fazendo isso? E aí todo mundo repetia: mas por que é que você está fazendo isso? E dava aquela ansiedade. E as pessoas não respondiam o que você queria.
Bia: É... (Risos)
Wilson: Este foi o primeiro exercício.
Bia: Este exercício... Você sabe que eu usei ele muito, durante, acho, uns oito, dez anos. Era o meu exercício de introdução em qualquer trabalho popular que eu fizesse. Porque ele destrancava qualquer pessoa.
Wilson: Era terrível...
Bia: Chama exercício do espelho, esse.
Wilson: Mas é uma experiência terrível...
Bia: Terrível.
Wilson: Pra quem entra na sala, porque você fala: - Mas fala comigo! Mas aí todo mundo: Mas fala comigo! E você fica naquela aflição.
Bia: É porque você ia começar a aprender a se conhecer.
Wilson: É...
Bia: Quando você não conseguia dominar a situação, você, dependendo da sua personalidade, você reagiria. Eu me lembro de uma vez que eu tive que pegar um menino pelo braço porque ele ia matar o colega de tanto... Ele queria que o cara dissesse, respondesse... E ele respondia para ele a mesma coisa. Se chama o exercício do espelho, esse. Então, ele não tinha paciência. Em nenhum momento, ele parou para pensar e disse: - Mas, poxa, mas isso é um exercício de brincadeira, uma coisa de teatro.
Wilson: Mas ninguém pensa.
Bia: Não pensa por que? Porque entra em jogo a personalidade da pessoa.
Wilson: Hã-hã.
Bia: E a gente parando aquilo e fazendo as pessoas refletirem sobre a atitude que elas tiveram, e sobre também... Olha, sobre tudo... a única pessoa... porque é um exercício de improvisação em teatro. Então, você diz: vamos fazer um exercício...
Wilson: Era Boal?
Bia: Não. Isso não era Boal. Eu aprendi esse exercício, até foi com um professor, um professor...Eu pratiquei esse exercício com um professor... A primeira vez que eu fiz um trabalho de creche, em Piracicaba. Um trabalho de creche que depois foi filmado. Passou o Brasil inteiro. Este trabalho correu o Brasil inteiro. O teatro usado como estímulo para discussão dos problemas. E ele fez esse exercício, eu gostei muito, e aí passei a usar este exercício que eu conheci com ele.
Wilson: Foi meu primeiro exercício com vocês.
Bia: Mas importantíssimo, não era? Que ele desbloqueia.
Wilson: Você nem lembrava disso.
Bia: Eu não. Não me lembro.
Wilson: Mas eu lembro porque me marcou profundamente. É claro. O meu primeiro exercício, na primeira reunião de teatro que eu tinha ido.
Bia: (Risos).
Wilson: Tanto é que eu voltei depois e fiquei.
Bia: Porque você ficou... Porque seguramente a gente senta depois e discute.
Wilson: É, e discute. A gente discutia.
Bia: Porque é que aconteceu aquilo. Em nenhum momento as pessoas... Só tive uma pessoa que soube fazer a análise correta disso. Era um curso que eu estava dando numa oficina da rua Três Rios. Na oficina Três Rios. E ela era uma francesa. Era uma professora francesa, professora primária que estava com os filhos. Era um curso que eu estava dando... Tinha um palhaço que dava o curso que ele também era da pedagogia Freneit. O Magnólio. Foi depois, né? Fiz muito curso popular depois. Muito. Ele ficava com as crianças e eu ficava com os pais das crianças. E ali nós fazíamos um trabalho e depois juntávamos os dois. Ficou muito lindo. Esta oficina foi lindíssima. Foi uma beleza. E ela foi para fora. Justamente, todos eles saíram para fora. E ela foi para fora. E aí eu tinha dito: Vocês vão combinar a improvisação. Como é que você pode combinar uma improvisação? A improvisação é uma improvisação. Se você parasse para pensar e raciocinar um segundo, você jamais iria fazer alguma coisa. Não podia, não tinha o que fazer!A única coisa que você podia combinar com seu amigo lá fora era dizer assim: Eu sou primo da moça que está lá dentro e você é o amigo dela. A única coisa que podia ser feita lá fora. O assunto é esse. Agora o que é que nós vamos fazer? Como é que nós vamos preparar isso? Não pode. Então ela ficou conversando com a outra moça. Chegou lá. Assim que o cara repetiu o que ela falou ela disse: (Risos). Ela caiu na risada. Ah... O que é que era isso? Uma maturidade. Era uma pessoa amadurecida que raciocionava muito, uma moça que tinha um bom raciocínio. Culta. Tinha... Não era uma pessoa assim... tão emocional, não é? Que não conseguia... Então, ela imediatamente sacou. Porque a palavra improvisação, em primeiro lugar, ninguém nem ouve. Naquela época se ouvia muito menos. Naquela época você se lembra que nós chegamos a fazer o Impossível Chão porque o povo não entendia a letra das músicas do Chico Buarque, porque ele estava acostumado a ouvir só música americana?
Wilson: Foi um dos motivos, não foi?
Bia: Foi.
Wilson: Porque ...
Bia: Foi. Foi.
Wilson: ...eles escutavam também música na hora do recreio.
Bia: Do recreio. Então, mas isso já foi em seqüência.
Wilson: Mas isso já era..
Bia: ... do projeto grande da escola. Porque no projeto grande nós resolvemos fazer a Festa Junina. Porque aí a Adib fez todo mundo trabalhar na festa junina, não lembra?
Wilson: Lembro. Aí eu já estava no grupo.
Bia: E, então. Arrecadamos dinheiro. A proposta do Celso era colocar um aparelho de som lá dentro. Fez-se a cabine de som. E ficava na responsabilidade dos alunos, trazer os discos... e trocarem as influências. E o grupo ficou horrorizado porque toda vez que punha... Toda vez que a Berê ou alguma outra pessoa do grupo que eu não me lembro. Eu me lembro muito bem da Berê reclamando muito isso. Punha um disco bonito, que estava saindo, do Chico Buarque, um dos mais lindos dele. Que era aquele que nós chegamos a dramatizar.
Wilson: Tinha a música do Tocar o impossível chão.
Bia: Tinha a música do Tocar o Impossível Chão, mas tinha a música do Construção do Chico Buarque. E tinha muitas músicas. Essa parte... Sabe que eu não fiz nenhuma gravação disso aí. Disso eu não tenho nenhuma gravação.
Wilson: Das músicas?
Bia: Não. Não tenho a gravação. Porque foram arranjos feitos entre os músicos lá. Eles é que fizeram os arranjos.
Wilson: Mas eu lembro... eu estava, agora vindo para cá mesmo, lembrando de uma das músicas.
Bia: Sim.
Wilson: É uma questão de pegar a molecada e tentar...
Bia: É. Mas eu digo, eu não cheguei a...
Wilson: e a gente cantar.
Bia: ...reproduzir porque as Pastoras tem a gravação. Agora do Tocar o Impossível Chão, nós não chegamos a gravar.
Wilson: Mas é o que eu estou lhe falando. Talvez se a gente reunisse, Berê, eu e Lu, talvez a gente conseguiria lembrar da música.
Bia: Sei.
Wilson: Lembra das letras que a gente fez?
Bia: Sim, mas isso, não. Isso não tem problema. Mas isso a gente pega...
Wilson: Acho que Lívio tem... Mas acho até que o Lívio tem.
Bia: Não... Tem.
Wilson: Porque foi o Lívio que fez as músicas. Deve ter em algum lugar.
Bia: Não. Lívio fez uma música, a música de entrada, que ele nem lembra até hoje. Eu consegui descobrir aí agora. As músicas eram...
Wilson: Era assim...(cantando) Difícil é você sabendo de tudo...
Bia: É. Tem aí. Isso. A música vocês precisam lembrar mesmo porque essa era a música dele. Mas o que eu digo, os arranjos. Eram as músicas do Chico Buarque, eram as músicas do... Tinha um monte.
Wilson: Do Gil. Você está falando do espetáculo?
Bia: Do Gil. Do Luiz Gonzaga, Triste Partida.
Wilson: Luiz Gonzaga... Claro.
Bia: Eu estou falando que eu não gravei os arranjos que eles fizeram, como eles tocavam na peça. Isso eu não tenho. Eu tenho... Eu tenho, não. Deve estar com alguém. Acho que está com o marido da Sueli. A fita. Lembra quando os músicos não podiam...
Wilson: Lembro
Bia: ... ir e a gente usava uma fita.
Wilson: Tinha a fita.
Bia: Então, essa fita eu não tenho.
Wilson: Ah, é mesmo... porque eles tocaram um playback. Eles gravaram um playback.
Bia: Olha, eles fizeram nessa peça Tocar o Impossível Chão, o grupo de música fez um trabalho belíssimo. Porque eles além de fazer, além de selecionarem as músicas para serem dramatizadas. Porque foi uma coisa entre eles e o grupo. Sempre tudo discussão coletiva, né? Mas os arranjos eles é que inventaram que instrumentos eles iam pôr, quanto eles iam pôr...
Wilson: Mas aí é que entra o Lívio, Bia.
Bia: Então o Lívio que coordenava aquela coisa...
Wilson: com o Sérigo também...
Bia: ... junto com o Sérgio. Junto com o Mário...
Wilson: Mário.
Bia: Eram eles que tinham, os que tinham mais conhecimento.
Wilson: Você lembra que a gente cantava, cantava, cantava...
Bia: Cantava. Naquela peça cantava pra chuchu.
Wilson: A gente ensaiou meses, cantando.
Bia: Meses cantando... Cantava...
Wilson: Eles fizeram o trabalho de descobrir que tipo de voz, que tipo de... Lembra?
Bia: Ah, sim. Isso quem fazia era Sérgio. Isso eu me lembro porque ele fazia isso no coral da igreja dele lá.
Wilson: E a gente ficava assim... Não agüentava mais. Lembra?
Bia: (Riso) É. Era um trabalho. Era trabalho. Era barra mesmo. Mas era uma coisa de orgulho de fazer uma coisa bem, né? Era aquela paixão... de fazer.
Wilson: Mas aí a gente já tinha feito a Pena e a Lei.
Bia: É já tinha feito.
Wilson: A Edna já tinha montado o Auto da Compadecida...
Bia: Auto da Compadecida. Exato.
Wilson: ... com a meninas. Também não sei como a Edna apareceu. Acho que foi através do Artur, não foi?
Bia: A Edna. Foi através do Artur e foi através daquele grupo que veio com a cantora...
Wilson: com a...
Bia: essa...
Wilson: A Elba Ramalho.
Bia: Com a Tânia.
Wilson: Tânia Alves.
Bia: Elas eram mocinhas. Estavam começando. Cordão Viva o Cordão Encarnado. Você acredita que até hoje eu tenho aquele negócio, né?
Wilson: Hã-hã.
Bia: Nós fomos assistir ao Viva o Cordão Encarnado. Artur era amigo do ator e do diretor também. Fui conhecê-lo. E aí vocês se encantaram com o Cordão Encarnado. E aí queriam fazer o Viva o Cordão Encarnado de qualquer jeito. Lembra?
Wilson: Lembro.
Bia: Foi aí que a gente parou...
Wilson: Foi naquele teatro... Na Brigadeiro Luiz Antônio.
Bia: Na Brigadeiro Luiz Antônio. Exatamente. Ele agora está bem melhor este teatro.
Wilson: Tablado? Não é Tablado.
Bia: Não.
Wilson: Não.
Bia: Não me lembro também como se chama.
Wilson: Eu também não me lembro. Mas era na Brigadeiro.
Bia: Viva o Cordão Encarnado, vocês foram assistir. Aí não quiseram mais fazer Tocar o Impossível Chão porque se encantaram com a coisa do Pastoril e do Cordel.
Wilson: Com o profano. Isso que a gente se encantou.
Bia:É. (rindo) o profano. O profano.
Wilson: Isso é o que eu não me lembro. Aí o Artur começou a montar a Pena e A Lei conosco.
Bia: Mas isso foi antes isso.
Wilson: Isso. Bem antes.
Bia: Bem antes...
Wilson: Mas aí uma parte do grupo que foi Meire, Zélia. Eu não me lembro qual foi a ruptura aí. Porque a gente foi dividido, lembra?
Bia: Aqui é o seguinte. Não. O Artur quando ele entrou, ele entrou pra fazer dois grupos de teatro.
Wilson: Ah, isso mesmo.
Bia: O período noturno. O pessoal do período noturno e o pessoal do período diurno. Como ele não conseguia se engrenar com o período noturno e o período diurno, ele trouxe a Edna e o marido da Edna que dava uma força também para nós. Eu me lembro dele. Ele era estrangeiro. Não me lembro. O que é que ele era? Norueguês, uma coisa assim.
Wilson: É... uma coisa assim.
Bia: Muito animado também. Bom. Aí chegou um momento que eu vi que para a coisa andar, tinha que deixar o Artur só com a Pena e a Lei e a Edna e o marido com ... com...
Wilson: Com o Auto da Compadecida.
Bia: Porque ela estava em cartaz, fazendo o Pastoril. Ela estava em cartaz...
Wilson: Ela estava? Isso eu não me lembro.
Bia: Estava. Ela estava em cartaz fazendo...
Wilson: Eu lembro que ela era amiga da Elba...
Bia: É. Isso.
Wilson:... Mas eu não me lembro que elas...
Bia: Ela e outras pessoas também. O Damilton.
Wilson: Damilton. Eu me lembro também.
Bia: Todos eles faziam parte do Viva o Cordão Encarnado, do...
Wilson: Luiz Marinho.
Wilson: ...do Mendonça.
Bia: Do Mendonça. Aí eles resolveram ir para fazer esse trabalho. Eles ficaram em cartaz um bom tempo aqui.
Wilson: Elas moraram no teatro. Você não lembra disso?
Bia: Moravam. Eu me lembro disso, sim.
Wilson: Eles chegaram a morar lá no teatro.
Bia: Eu me lembro, sim. Eu me lembro, sim... Era um teatro. Sim, naquele teatro. Lembra? Era uma coisa. Aquele teatro ali era até bem mal visto aqui porque era um pessoal que puxava um pouco do saco dos militares e tal... Pessoal não gostava muito do dono daquele teatro ali. E ele ficou mal visto a beça, por causa disso. E nessa época era a época que eu estava fazendo também ... estava dirigindo o Fagundes. Lembra que eu estava com o Vignatti? Como assistente de direção?
Wilson: É, foi nessa época.
Bia: Ali. Olha quanta coisa eu fazia ao mesmo tempo! Meu Deus, eu dava aula. Eu fazia profissional.
Wilson: Que é onde você trabalhou com a Denise, não é? Com a Denise Stoklos.
Bia: É... com a Denise Stoklos. Foi quando eu trabalhei com a Denise. A Denise que foi ... ela trabalhava, ela fazia a bruxa.
Wilson: Com o Fagundes. É.
Bia: Lá com o Fagundes. Lá naquela peça do Santareno que era linda. Peça de um excelente português. Um excelente escritor português. Bernando de Santareno. Lá no Oficina. Eu sei porque era perto ali. E eles ficaram muito tempo. Estava Breda também.
Wilson: Em 88 quando eu a entrevistei pela primeira vez... quando eu entrevistei a Denise para o jornalzinho.
Bia: Hã?
Wilson: Eu mencionei o seu nome. Ela lembra de você.
Bia: Ah, é. É. Ah, nossa.
Wilson: Ela virou minha amiga. Uma amigona. Amigona.
Bia: Olha, que coisa...
Wilson: Fui à casa dela.
Bia: Tenho saudades dela.
Wilson: Ela tem um trabalho muito interessante, né?
Bia: É.
Wilson: ...que é o tal do Teatro Essencial que ela denomina o trabalho dela. E la, famosa.
Bia: É.
Wilson: Ela é famosa em Nova York.
Bia: Ela é famosa, sim. Eu sei que é.
Wilson: Com a Ellen Stuart do La MaMa. É uma coisa assim...
Bia: Ah, sim. Sem dúvida.
Wilson: Todo ano... E agora ela foi convidada para dar aula no tal do Performance Studies que eu quero entrar no ano que vem, se Deus quiser. Este ano.
Bia: Ah é...
Wilson: Porque a chefe de departamento, ela é mexicano-americana que faz um trabalho de popularização também do teatro.
Bia: Sei.
Wilson: Ela está tentando trazer isso para o acadêmico.
Bia: Sei. Da região?
Wilson: Da NYU.
Bia: Entendo.
Wilson: Da Universidade de Nova York.
Bia: Hã-hã.
Wilson: Então, faca e o queijo na mão, entendeu?...
Bia: É você mesmo. (Risos)
Wilson: Mas eu estou torcendo ...
Bia: Para dar certo, né?.
Wilson: É porque é muito caro, Bia.
Bia: É, né?
Wilson: Treze mil dólares por semestre, não tenho.
Bia: Nossa. É dinheiro, né?
Wilson: Não tenho. Então fiz o que tinha que fazer. Vamos ver o que acontece.
Bia: Claro.
Wilson: Bom, voltando...
Bia: (Riso) Voltando...
Wilson: Não é a bolsa. É isso que eu estou tentando.
Bia: A bolsa. É, claro.
Wilson: Vamos ver.
Bia: Tem que conseguir tudo com bolsa mesmo, né? Lívio conseguiu tudo sozinho.
Wilson: Como eu sou estrangeiro, há uma possibilidade melhor aí.
Bia: Ah, sei.
Wilson: Tem as minorias. Eles vêem esse lado também.
Bia: Sei.
Wilson: Entende? Inclusive para quem é americano. O americano não vê muito bem isso.
Bia: É, né.
Wilson: Para as minorias e os estrangeiros. Entendeu?
Bia: É, eu sei. Entendi.
Wilson: Como você vai dar lugar, o espaço pra um ... Mas eles têm dinheiro.
Bia: Ah. Eles não levam a nossa...
Wilson: Bom...
Bia: Onde foi que nós paramos mesmo?
Wilson: Nós paramos no Auto da Compadecida. Com A Pena e a Lei. Dois grupos. Você chamou o Artur para ajudar...
Bia: Isso. O Artur chamou a Edna. Porque eu fazia um monte de coisa. Eu fazia todas as atividades. A biblioteca. Assim que a Adib entrou.
Wilson: Hã-hã.... Ainda tem
Bia: Ainda tem? Então. Assim que a Adib entrou, eu fazia biblioteca, o cinema que chegamos a fazer, o cineclube, os grupos de teatro. Uma série de atividades. E outras coisas também que ajudaram também a Adib lá. Dava aula de francês. Um monte de coisa. Então, era muita coisa isolada assim. E eu coordenava tudo isso, né? Eu não podia fazer tudo. Eu coordenava isso tudo. Mas aí foi acontecendo o seguinte: o Artur foi tendo dificuldade. Chegou um dia que a Sueli, parece que estava. Tinha um grupo pequenininho. Tava reduzido. E ele não tinha tarimba de diretor e nem tinha muita paciência. Ele nunca teve. Na verdade ele nunca teve. Os grupos de teatro que ele teve, sempre se esboroaram, porque ele não tem paciência para ensaiar... criar... Ele é muito criativo. Escreve muito bem. Um monte de coisa. Mas essa coisa de ficar fazendo, repetindo... e arrancar. Ele não é o ator. Ele faz as coisas como ator engraçadas. Mas ele não é um ator que faz diferentes papéis. Então ele não tinha essa tarimba para tirar de vocês a possibilidade de fazer um personagem. Então chegou uma época que ele disse: Olha, vai acabar o grupo porque eu acho que não tem jeito. Era férias. Eu disse: A meninada está lá? Ele disse:Tá. Eu fui. Me lembro disso. Cheguei lá e disse: Vamos lá. Vamos fazer. Vamos fazer. Em três semanas, já estava com a peça... andando em bom... E já estava aumentando. Já ia aumentando. Porque eu tinha a dinâmica de uma peça de teatro que ele ainda não tinha. Ele tinha trabalhado junto com o grupo do Joacir. Lembra?
Wilson: Lembro. O grupo do Joacir.
Bia: Ele tinha trabalhado com o Joacir, mas ele não tinha a tarimba do Joacir. Joacir levantava aquilo. Não é fácil você levantar um grupo assim, né? Fazer o grupo tomar ânimo. E interpretar... e... a meninada se entusiasmou. Eu digo: Não. Eu vou tocar esse negócio aí. Toquei. Deixei. Chamei o Artur de volta. Ele fazia. Ele veio...
Wilson: Isso eu lembro.
Bia: No dia da estréia ele inventou uma moda lá. Não sei com quem. Com o Sérgio! O que é que foi?
Wilson: Isso eu já não lembro. Sei...
Bia: Foi no...
[Fim da primeiro lado da primeira fita]
Wilson: Vou trocar aqui... Ele fazia o Benedito.
Bia: Pois é... O Sérgio fazia o personagem principal.
Wilson: Você nem lembra do que eu fazia no começo...
Bia: Lembro.
Wilson: Sabe o que eu fazia?
Bia: Hã?
Wilson: Eu vendia bala na platéia.
Bia: Me lembro disso. Tinha uma caixa... Me lembro...
Wilson: Eu tinha uma caixa que chamava Macaxeira.
Bia: (Risos)
Wilson: Foi daí que depois de muitos anos a gente pensou em macaxeira, xaxado.. e macaxeira O Último...
Bia: O Último Xaxado em Macaxeira. Foi idéia do Artur, inclusive.
Wilson: Xaxado...porque eu vendia supostamente. Era macaxeira que eu vendia.
Bia: É, chamava macaxeira, sim. Eu me lembro.
Wilson: Uma foto que eu tenho ainda. Uma toca de meia assim...
Bia: (Risos) É, assim...
Wilson: E eu ficava vendendo, Bala... Bala...
Bia: (Risos) Bala... bala... é, eu me lembro.
Wilson: Aí depois eu subia para fazer o tal do motorista da boléia...
Bia: Da boléia do caminhão.
Wilson: ...e eu ficava com a Sueli no final e que o Benedito queria conquistá-la mas que no fim ficava com o dono do caminhão. Era maravilhosa.
Bia: (Risos) Era uma graça.
Wilson: Eu vou traduzir esta peça.
Bia: Oh, peça linda, né?
Wilson: Eu vou traduzir.
Bia: Aí, eu digo... chego na escola. Tudo prontinho. Todo mundo morrendo de medo e o Artur branco. Branco. Simplesmente branco. Eu chego e digo: Artur, como é? Vamos? Vamos começar. O público chegando... Vamos. E ele disse (imitando a voz): Eu acho que não vai ter peça, Bia. Como não vai ter peça? Chego no camarim, as meninas naquele alvoroço: Ai, porque não vai ter! Ai, porque o Sérgio não deixa... Porque não sei, por que não vai... Porque vai. Aquele negócio. Aquela... Eu digo: Meu Deus, mas o que é que isso? Como que não vai ter? (Imitando a voz do Artur): Não. Porque eu não deixei o amigo dele entrar. Porque... e o Sérgio ficou bravo porque diz que a mulher, a minha mulher não pagou e o amigo dele também não ia pagar. Acho que era uma brincadeira deste tipo, alguma coisa deste tipo. Uma briguinha entre o Artur e o Sérgio por causa desta história. Porque o Artur tinha essas manias, né? Quando ele invocava... era triste. Então, o outro não queria vir. Eu fui buscar ele na casa dele. Eu digo: Eu não quero saber. Não quero saber. Não é com o Artur que você tem nada. Já pra lá. Mas, olha, tive que ir buscar na casa dele. Ele fez a peça e a carreira da peça começou ali porque eu fui buscar na hora de começar. Você acredita isso?
Wilson: Isso eu não me lembro.
Bia: O Artur tinha um problema assim de auto-destruição. Muitas vezes acontecia isso com ele.
Wilson: Ele era bem autoritário. Isso eu lembro. Ele era bem autoritário.
Bia: Ele era muito autoritário. Muito. E ele tinha um negócio contra ele mesmo, porque aquilo era um trabalho dele. Quer dizer, eu tinha ajudado quando encalhou era a minha função ir lá tirar ele, desencalhar, né? Com ele também eu fazia um trabalho pedagógico. Eu tinha muito mais experiência do que ele. Então, e ele não conseguia desencavar o negócio e, então, eu desencavei e estava no dia da estréia eu digo: Mas, Artur, você enloqueceu. Não, senhor. Já. Eu não quero nem saber de conversa. A meninada, todo mundo em cena. Vai sair? Ele diz: Não sei. Eu digo: Saiba. Problema seu. Agora não tem mais porque. Você lembra, né? Morriam de medo. Morriam não sei do quê. Eu digo: Mas como vocês...
Wilson: Agora você está me fazendo lembrar do camarim. Você lembra?
Bia: Você lembra aquele camarim... (Risos)
Wilson: No fundo do palco. Lembra? Que tinha sala assim meio escura. Tinha uma janela.
Bia: É.
Wilson: Era ali que a gente passava a roupa... se trocava... você lembra?
Bia: É você sabe que aquele camarim ali virou casa do guarda da escola? Eu nunca mais fiz teatro na escola porque o camarim da escola virou a casa do guarda.
Wilson: Isso eu não sabia.
Bia: Ih... quando nós fizemos aquela peça do Brecht que eu fiz em seguida com os estudantes... que nós botamos para fora o diretor da escola. Botamos pra fora o diretor da escola! Porque a coisa foi progressiva depois. Cresceu. Eu encontrei uma turma de alunos muito mais politizados que queriam fazer teatro. Fizemos Aquele que diz sim, aquele que diz não. Mas um espetáculo lindo.
Wilson: Isso foi depois da gente...
Bia: Foi depois. Bem depois. Foi bem depois. Isso aqui foi...
Wilson: Alguém me disse que você estava com um grupo.
Bia: É.
Wilson: Mas isso foi bem depois...
Bia: Bem depois. E não era Teatro-Circo. Porque Teatro-Circo era aquele. Teve oito anos de existência. E era aquele e acabou. Dali pra frente eu fiz uma enorme quantidade de trabalhos populares. Muito. Muitos trabalhos populares que eu fiz, foi... com mulheres, em creches, em milhares de lugares assim. Esse trabalho mais ou menos que o Boal faz. Fiz muito, esse trabalho, que eu acho muito importante esse trabalho. Era muito bom. Era um trabalho que a gente chamava de Oficina Freinet. E eu fazia ligado ao teatro, né? Meu meio de comunicação com o pessoal geralmente era oficina de teatro. É. Eu e Inês e mais alguma outra moça que também trabalha... nós faziamos uma turminha que íamos nos lugares. Mais a... o Artur me aprontou esse negócio aí, me apresentou essa coisa. E eu digo: Mas não é possível. Saiu o espetáculo. Foi um sucesso. Eu me lembro que foi.. o pessoal gostou muito. Todo mundo gostou. Aí chovia convites. Lembra? E como chovia convite pra tudo que era lado! E tinha que ir com aquele bando de gente. Nós éramos uns, uns vinte e cinco por aí...
Wilson: Vinte e oito! Nós chegamos a ser 28.
Bia: Vinte e oito. E aí começou, por incrível que pareça, a gente teve um apoio da Secretaria de Cultura muito melhor do que depois quando houve a tal da Abertura. Porque nesse período... foi quando eu fiquei sabendo que eles estavam... porque estas coisas correm, né? Havia uma porção de gente fazendo este tipo de trabalho na periferia. Muita gente que fazia política e que gostava... Também não podia mais fazer política, veio para os grupos de teatro. O grupo Galo de Briga... E ao mesmo tempo, os que faziam política, só por política, depois acabaram se dissipando e quando houve a Abertura eles desmontaram os grupos e tudo... foram embora. Mas os que eram artistas mesmo e que estavam nos grupos, a maioria, sempre tem a tendência pro...
Wilson: Você não acha que isso aconteceu com a gente também?
Bia: Não.
Wilson: Na hora que começou a abrir...
Bia: Ah, sim...
Wilson:... a gente já tinha se dissolvido também...
Bia: Sem dúvida. Porque havia muito mais possibilidade de participação com as coisas...
Wilson: A Abertura foi o quê, 85?
Bia: É... não tinha mais sentido. Nosso trabalho era um trabalho de resistência. Era um trabalho de valorização da cultura brasileira. Era um trabalho de doação para o povo.
Wilson: Pedagógico também.
Bia: O pedagógico aí não era só quando ele saía para a periferia. O pedagógico também não era só essa... Porque ela quando escreveu naquele livro, ela só pegou... Ela não entendeu direito...
Wilson: Ela não entendeu. Não.
Bia: ...o que eu falei. Ela fez uma entrevista rápida comigo e eu pensei que ela fosse aprofundar e não fez mais nada.
Wilson: Não. Ela misturou, eu não te falei? Ela mencionou o marxismo...
Bia: É... Não tinha nada a ver.
Wilson: Mas ela não aprofunda. Ela não fala...
Bia: A nossa parte foi a mais fraca, né? A parte dos teatros, dos grupos de teatro, todos os grupos de teatro sentiram isso. Porque depois eu encontrei com os colegas e todo mundo dizia... A primeira parte, na minha opinião, é muito bem feita. Aquele levantamento que ela fez de todo aquele trabalho na Rússia...
Bia: É.
Wilson: ... do agit-pop... e tal.
Bia: Então, aquilo é bem feito. Está muito bem feito. Ela fez um belíssimo levantamento. Mas quando ela foi a campo para ver... Porque nós já tínhamos...
Wilson: Ela chegou a nos assistir?
Bia: Não sei...
Wilson: Provavelmente não.
Bia: Ah, assistiu. Ela assistiu. Porque a Silvana sabe quem era? Sabe quem era a autora desse livro, por que ela fez esse livro? Porque... quando a gente começou, a Secretaria de Cultura do Estado abriu um pequeno projeto porque ela era uma professora da ECA que foi nomeada para ser da Secretaria de Cultura daquela parte de teatro. Então, uma das seções que ela fez ali do trabalho dela era justamente um trabalho de monitores que organizassem grupos na periferia. Fazia um trabalho que é esse trabalho que tanta falta cultural na periferia, aquilo que a gente está hoje está falando porque é que tem tanta violência, tanta droga, tanto inferno na periferia porque eles não têm esses trabalhos que preencham a vida desses jovens. Então, ela era uma pessoa esclarecida... Tudo coisa individual mesmo. Ela mandava ali dentro, ela pegou uma verbinha, uma verbinha... Então, ela juntou os monitores. E quem eram? Eram as pessoas dos grupos de teatro. Do TTT, o Maia... Ela é que era a nossa ... Aí o que ela fez? Esse projeto ela largou na mão da Silvana. Foi a Silvana que me nomeou. Eu tinha reuniões constantes com a Silvana. Lembra que eu ia nas reuniões?
Wilson: Eu lembro, claro.
Bia: Tinha o marido da Jussara, o Marco. Do grupo dele lá...
Wilson: Eu lembro que voce falava que eu tenho uma reunião, não sei o quê....
Bia: As reuniões eram para discutir os nossos trabalhos, como é que eles andavam. Porque a gente tinha que apresentar um resumo daquilo que a gente tinha feito... [Cai o gravador. Inaudível] Éramos, acho que, uns oito monitores. E o dinheiro que eu recebia que, em principio, era para mim. Quer dizer, a idéia da Secretaria era dar um dinheiro para aquele pessoal que fazia teatro na periferia, mas que teria um salário.
Wilson: Como o pessoal da Secretaria sabia da existência de nós? Como é que eles sabiam que na periferia pipocavam esses trabalhos assim?
Bia: Porque eu era do meio teatral. Eu conhecia ela. E eu tinha feito minha pós-graduação lá na ECA. Ela era professora da ECA. E eu falava do meu trabalho para ela.
Wilson: Ah, bom. Porque na minha cabeça fica assim como esse secretário da educação...
Bia: Como é que ligou, né?
Wilson... que lá na Brasilândia tem um grupo de teatro, entendeu?
Bia: Mas é que ela era uma pessoa que tinha esse tipo de preocupação. E a Silvana... a gente costumava dizer que a Silvana era uma moça que foi para a Europa e lá ela foi descobrir que era importante fazer teatro na periferia... (Risos) E era isso mesmo, viu? Quando ela voltou... que ela voltou embuída para fazer um trabalho de periferia, um trabalho de teatro...E ela precisa ganhar...
Wilson: Mas nessa linha de raciocínio sua, agora você percebe o que eu sinto quando eu venho visitar...
Bia: Eu imagino... É...
Wilson: Uma dor que você não imagina. Uma dor...
Bia: É uma dor.
Wilson:... que está tudo abandonado.
Bia: É... tá, tá... Tá abandonado.
Wilson: Então, entendeu, ela foi para a Europa e percebeu que tinha que fazer teatro na periferia. E eu fiz o contrário. Eu fiz teatro na periferia e fui embora.
Bia: É...
Wilson: Só que quando eu volto para visitar isso aqui...
Bia: Você só vê destruição, né? Não é? Só vê tudo arrasado...
Wilson: Mesmo o Virgília todo grafitado. Todo pixado. Todo... Isso me dá uma dor no coração. Sabe por quê?
Bia: Dá um desânimo. Dá uma dor. É, eu sei...
Wilson: Porque a hora que eu passo de ônibus assim, eu lembro da minha adolescência....
Bia: Claro.
Wilson:..que eu passei quase oito anos ali dentro.
Bia: É lógico. Realmente.
Wilson: Tudo abandonado. Uma coisa assim...
Bia: É um abandono. Já está melhor. Já esteve pior. Já esteve muito pior. Já está um pouquinho (coisa) melhor porque pelo menos o Covas ainda... Estes outros anteriores... Mas olha... mas o que nós temos tido. Mas nós tivemos o chefe da Máfia como presidente da República por dois anos que destruiu este país... Ele abriu este país para a Máfia. Você está vendo agora esses processos todos que estão mostrando essa pouca vergonha que houve aí de contrabando, de droga, e de tudo que foi... foi com a a abertura do Collor, foi. Foi o Collor.
Wilson: E ainda ter a capacidade de querer ser candidato a prefeito desta cidade.
Bia: Ainda aparece aí...
Wilson: Cara de pau.
Bia: Meu Deus, esse país. Ai, que tristeza... É uma dor constante. Eu vou dizer pra você: eu vivo num estado de revolta e de dor permanente. Porque é uma coisa! Você avança um passo, você volta para trás cinco. Agora, está sendo proposta uma modificação nas leis trabalhistas que foi uma luta dos brasileiros...
Wilson: De tirar tudo. Eu já ouvi isso.
Bia: De tirar tudo! Eles querem tirar.
Wilson: É!
Bia: Todos os direitos. Férias...
Wilson: De virar uma única coisa.
Bia: Não! Eles querem botar tudo para dissídio coletivo. Isto é, senta o sindicato patronal e o sindicato dos trabalhadores para discutir os direitos. Agora: quem é o forte ali? Quem é o forte neste momento? O Brasil está quebrado, com um desemprego extraordinário, com uma dívida assustadora e entregue às traças. Porque está. Então você tem um trabalhador que é capaz de fazer qualquer negócio para manter o emprego dele. São Bernardo está conseguindo manter um certo número de trabalhadores dentro das fábricas com redução de horas de trabalho porque tem um movimento de luta. Mas a grande maioria dos trabalhadores... com essa mudança tecnológica também, isso serve de pretexto para mandar embora todo mundo, e para não pagar os direitos, para não pagar nada. Então, é uma loucura. Isso aqui está uma terra de ninguém. Está uma loucura, esta terra. Então, você vai deixar, vai instituir um regime, quem é que tem a força? É o sindicato patronal. O sindicato dos trabalhadores não pode fazer coisa nenhuma! E depois, isso é uma conquista dos trabalhadores... O Maurício dizia que o Fernando Henrique está brigando com o pai dele, é uma questão Freudiana. (Risos) Porque o pai dele foi uma das pessoas que inclusive lutou muito para instituir os direitos aos trabalhadores. Era um general. Com o Getúlio...
Wilson: Gaúcho, não é?
Bia: É. Ele conseguiu, o pai. Ele agora vai tirar tudo. Maurício dizia, E Freudiano, Só pode ser. Para ser contra o pai...
Wilson: Vamos gravar aquilo que você falou ao telefone para mim? Que o Maurício dizia, um sociólogo...
Bia: (Risos) Também fomos escolher um sociólogo para presidente!!!
Wilson: Maravilha...
Bia. É... não é possível. Um sociólogo para Presidente, só podia dar isso. (Risos) Mas a verdade é que Maurício sempre desconfiou que o Fernando Henrique nunca foi de nada. Na verdade, ele é um homem de elite. Ele é um homem rico. Sempre foi.
Wilson: Culto... Intelectual.
Bia: Culto... É mas a gente confiava, achava que ele tinha até um pouco mais... Ele está fazendo coisa que ele não tinha que fazer. O próprio Bresser Pereira, que foi da equipe dele, o Bresser eu conheço bem. Ele era colega de Maurício lá na GV. Eu conheço bem. O próprio Bresser fez um artigo domingo passado, eu peguei ali. Estava lendo, dizendo que nós estamos sendo mais realistas do que o rei. Nenhum país vai vender o Banco do Brasil... o Banco do seu país para um estrangeiro. Vai ver se eles fazem? Eles falam, Façam isso, mas eles não falam, Façam que eu falo, mas não façam o que eu faço. Porque ninguém faz isso, ninguém destrói tudo, todo o patrimônio do povo. Tudo. Tudo. E ele mesmo está propondo que o Estado tem que ter um papel de coibir esses exageros.
Wilson: Claro. Por que senão para que a existência do próprio Estado?
Bia: Você já ouviu no ataque?
Wilson: O que é?
Bia: É um movimento que vem vindo da França que exige, tentando exigir... Já está impondo isso, já está conseguindo em alguns lugares... um imposto do Estado, um imposto para o país, dos capitais voláteis. Porque os capitais voláteis estão tomando conta do mundo, né? Eles fazem... se eles quiserem quebrar o Brasil, eles quebram o Brasil. Eles já fizeram isso, né? Há pouco tempo, em janeiro do ano passao foi o que eles fizeram.
Wilson: Mas você viu que coisa maravilhosa em Seattle, nos Estados Unidos? Na convenção dos...
Bia: Aquilo foi feito pelos Anarquistas.
Wilson: Franceses. Sabe que tem um francês maravilhoso que agora não me lembro do nome dele. Ele foi para os Estados Unidos.
Bia: Foi, eu vi.
Wilson: E foi falar com os fazendeiros que eles não podem ter pesticidas na sua fazenda. Isso é contra a agricultura.
Bia: É ... isso é muito bom...
Wilson: Mas aí consegue infiltrar e movimentou a molecada de Seattle que começou a jogar bombas...
Bia: É, foi muito importante.
Wilson: Como é que você pode fazer um negócio desse? Você está passando por cima de todos os outros países. Vocês vão fazer tudo igual agora só que eu, Estados Unidos, não faço. É como você está falando Bia, Todo mundo pode fazer o que eu estou falando, mas eu não vou fazer o que estou professando.
Bia: É, isso. Exigindo dos outros, explicando e dizendo que é assim que deve ser feito mas eu nao faço! Ah, quero ver...
Wilson: Mas eles vão ficar sozinhos.
Bia: Eles vão.
Wilson: Eles vão ficar tão isolados que você não imagina.
Bia: Vão porque está uma coisa muito esquisita, né?
Wilson: É. Eu moro lá. Eu gosto do que funciona...
Bia: não... o americano normal é...
Wilson: ...mas o americano sabe que vai ter uma coisa muito grande. Que é a queda mesmo do Império...
Bia: É a queda do Império. É, porque não dá... não dá...
Wilson: Porque eles chegam e impõem... Imagina... A Europa agora toda unida. Eu acho...
Bia: É...
Wilson:... que é a única que vai conseguir ainda dar uma... Porque a União Soviética está quebrada. Não existe mais...
Bia: É a União Soviética, não...
Wilson: Não tem outro lugar...
Bia: É...
Wilson: Então, é essa união aí... européia...
Bia: É, eles acham que a união européia... os blocos, né?
Wilson: Os blocos.
Bia: Estão querendo fortalecer o Mercosul. Mas o pessoal (palavra faltando) Dificilmente.
Wilson: É.. e aí entra o latino...
Bia: Entra o latino...e entra o problema. Não. O problema...
Wilson: Você acha...
Bia: O problema dos Estados Unidos, né?
Wilson:... que o argentino vai querer ter a mesma moeda que o Brasil?
Bia: Exato.
Wilson: Bom, voltando ao nosso Teatro-Circo Alegria dos Pobres...
Bia: (Risos.) É.
Wilson: Sabe onde a gente parou?
Bia: Hã? Onde?
Wilson: Nós paramos...
Bia: Eu vou desligar um pouquinho isso aqui... ( ar condicionado)
Wilson: Agora já deu uma esfriadinha.
Bia: É. Já.
Wilson: É maravilhosa, essa tua vista...
Bia: É... vista. Graças a Deus,viu?
Wilson: Parece o Rio de Janeiro.... com aquelas montanhas.
Bia: Aquelas montanhas, né? Ah, é, a vista é muito bonita, sim.
Wilson: Você mora alto!
Bia: Alto pra chuchu, né? No seis. Você mora em apartamento também ou casa?
Wilson: Eu moro em apartmento. Grande...
Bia: Apartamento. Alto também?
Wilson: Não. No terceiro andar.
Bia: No terceiro andar.
Wilson: Mas são quatro andares apenas.
Bia: Ah, sei.
Wilson: É muito lindo, meu apartamento.
Bia: É bom? Ai que bom...
Wilson: Construído em 1920...
Bia: Hmmm...
Wilson: Sabe, daqueles antigos...
Bia: Pé direito alto. Ai, é uma delícia isso.
Wilson: O meu elevadorzinho abre na minha sala...
Bia: Ai, que delícia.
Wilson: você entra em casa.
Bia: Sei. Já direto em casa.
Wilson: É muito muito gostoso.
Bia: Eu vou lá.
Wilson: Está convidada.
Bia: (Risos.)
Wilson: É só chegar de mala e cuia.
Bia: Eu vou, sim. Um dia eu vou mesmo. (Risos.)
Wilson: Tem, sim. Tem lugar mesmo. Tem dois banheiros, dois quartos...
Bia: (Risos.)
Wilson: ...duas salas... é enorme.
Bia: Ih, que beleza! Que bom.
Wilson: Meu jardim...
Bia: Hã...
Wilson: Meu jardim é imenso. Porque é...
Bia: Tem jardim?
Wilson: É assim: são vários prédios. São sete desse lado. E sete daquele...
Bia: Sei.
Wilson: E eles fecharam. Então é um bloco...
Bia: Um bloco... fechado
Wilson:... inteiro fechado. E ali dentro é o meu jardim...
Bia: Ai, que bom.
Wilson: ... com árvores enormes...
Bia: Ai, que lindo.
Wilson:... os esquilos correndo...
Bia: Ai, que beleza...
Wilson: É muito lindo. Vou te mostrar.
Bia: Teus pais já estiveram lá?
Wilson: Minha mãe.
Bia: Sua mãe?
Wilson: Meu pai não sobe no avião. Não adianta.
Bia: Não vai? (Risos)
Wilson: Isso aqui é o meu quintal.
Bia: Olha. Que lindo.
Wilson: São árvores. Você desce e fica... E não pode pisar na grama.
Bia: Que lindo.
Wilson: Meio fascistóide assim, mas...
Bia: É...
Wilson: Tem que ser.
Bia: Precisa cuidar, né?
Wilson: Tem que cuidar. Entende? Agora a maioria....
Bia: Não, ué.... O que é para ver, é pra ver... O que é para andar, é andar, né?
Wilson: Os moradores, a maioria é de gente de mais idade. Então, tem senhoras de oitenta anos...
Bia: Hã-hã.
Wilson: noventa anos...
Bia: Nossa!
Wilson: Então, é...
Bia: ...cuidado...
Wilson:... no burburinho, sem estar no burburinho.
Bia: Delícia. Tão bom isso, né?
Wilson: É uma coisa tão impressionante... Eu tenho três janelas no meu quarto...
Bia: Olha que beleza...
Wilson: ...que dão para esse quintal, assim. Para esse jardim.
Bia: Que lindo... Que beleza.
Wilson: É muito lindo. Muito lindo.
Bia: É.
Wilson: Podia ter trazido, esqueci. Bom... Voltando...
Bia: (Risos) Vamos.
Wilson: Sabe o que a gente está falando?
Bia: Hã?
Wilson: Do Teatro-Circo. Da Pena e a Lei. Da briga do Sérgio lá... que ia, que não ia...
Bia: Mas, aí, eu fui...
Wilson: Você foi lá buscar... E ele foi... estreamos.
Bia: Foi. Estreamos.
Wilson: Eu começo minha tese com a primeira noite. Eu já comecei a escrever.
Bia: Ah, é?
Wilson: A minha impressão da primeira noite.
Bia: Da primeira noite... Ai, que interessante.
Wilson: Porque eu lembro. Eu lembro assim.
Bia: A primeira noite da estréia? Noite da estréia.
Wilson: estréia...
Bia: Você se lembra, então, que não estava pra acontecer?
Wilson: Não estava para acontecer... Agora que você... Você me lembrando...
Bia: É...
Wilson: Agora, eu estou... Eu lembro do burburinho. Tinha alguma coisa.
Bia: É, um burburinho. Você estava mais distante porque você não pertencia à escola. Então, acho que você só vinha nas horas de ensaio, tal assim, né?
Wilson: É...
Bia: Então...
Wilson: É. Eu não estava lá...
Bia: Você não estava lá. Pois é...
Wilson: Eu não estudava lá. Eu ia no sábado para ensaiar.
Bia: Então... O que resto é que estava... (Risos) Que loucura, né? Mas, não, imagina tantos meses de trabalho e vai jogar isso fora agora? Nem pensar! Aí, foi. Começamos a...
Wilson: Agora também tem uma coisa. É uma queixazinha...
Bia: Hã?
Wilson: ... daquela época. Os mais jovens também... a gente também era um pouquinho mais distante. Bia?
Bia: Como os mais jovens?
Wilson: Como eu. A Suzete...
Bia: Hã?
Wilson: Nós éramos mais jovens.
Bia: Sim.
Wilson: Então, a gente não participava também de muitas coisas...
Bia: De dentro...
Wilson: ...que tinha que decidir. Entendeu?
Bia: Dentro?
Wilson: Dentro. Você não lembra disso?
Bia: Não.
Wilson: Primeiro que...
Bia: Bom, eu chamava todo mundo. Nós sentávamos sempre todos juntos, não é?
Wilson: Não. Quanto tinha o ensaio, sim. Mas quando havia alguma coisa...
Bia: Não... as coisas de decisão...
Wilson:... de ordem burocrática, de decisão...
Bia: De decisão... era todo mundo junto!
Wilson: Sim. Mas tinha umas coisas assim...
Bia: Você se lembra?
Wilson: Por exemplo... O Impossível Chão, eu não participei da...
Bia: Hã?
Wilson:... escrita. Você lembra?
Bia: Ah, você sabe como foi feita a escrita do Impossíve Chão?
Wilson: Nos intervalos.
Bia: Nos intervalos. Mas porque você não estava!
Wilson: E a molecada que estudava de manhã também não participou...
Bia: Porque era entre...
Wilson: era à noite...
Bia: Porque era entre...É... porque os meninos que escreviam... Porque aí tinha o seguinte...
Wilson: O Adelson...
Bia: Era o Adel... Aí tinha. A gente tinha que fazer uma certa divisão.
Wilson: É...
Bia: Porque senão não andava o grupo...
Wilson: não andava.
Bia: Não andava. A gente tinha, durante a semana, que preparar. O Adelson trazia as coisas escritas... eram quinze, vinte minutos antes da aula. Eu me lembro disso.
Wilson: Bia, sinceramente... Foi ele mesmo que trouxe coisas escritas? Porque ele me falou isso...
Bia: Ele trouxe. Foi. Ele... Era o Adelson...
Wilson: Então a espinha do negócio foi ele mesmo que trouxe...
Bia: Foi. Foi. Foi ele, sim. Ele trouxe coisa escrita. Quem trazia também coisa escrita? Quem era? Era aquele amigo do Lívio... Ele era muito quietinho...
Wilson: Ah, que era alto...
Bia: Lembra? Alto!É até hoje é muito...
Wilson: Bem branquinho, assim...
Bia: É!
Wilson: Não é o Júlio, não?
Bia: É... o Júlio.
Wilson: O Júlio.
Bia: O Júlio.
Wilson: O Júlio.
Bia: O Júlio. Ele fez um livro com o Lívio.
Wilson: Olha...
Bia: Depois... Um livro moderno. Sabe?
Wilson: Ele era uma cabeça.
Bia: É...
Wilson: Ele era muito... Ele era poeta.
Bia: Ele é poeta. Ele era poeta. Eles fizeram juntos um livro depois. De poesia bem... bem... poesia concreta... junto com Haroldo de Campos. O Augusto. Porque o Lívio tinha muita amizade com o Haroldo e o Augusto. E o Lívio largou a escola dele no ano seguinte. Ele largou o Equipe. Não quis saber nunca mais do Equipe. Porque era muita droga, muito (???) de boca aberta lá. Ele não suportava aquilo. Nem ele, nem a Lucila. Os dois largaram no segundo ano. Os dois largaram o Equipe. Eles não agüentavam aquilo. E eu... Eles vieram para trabalhar comigo dentro do Grupo porque foi uma... Eles diziam, Mãe, eu não agüento mais. Eu quero sair daquela escola. Era a melhor escola de São Paulo. Eu estava no Estado. Eu dizia, Meu Deus, e agora como é que faz, né? Aí, eles vieram trabalhar no Grupo. Eu digo, Vocês vêm comigo lá. Vão... Vão... Vão ver se vocês descobrem alguma coisa de vocês aí lá, né? E entraram no Grupo. Como muita gente que estava lá e aí foi. A Lucila foi comigo até o final, né? Mas Lívio logo foi descobrindo... ele chegou para mim, com dezessete anos, e disse, Mãe, preciso fazer alguma coisa na vida. Tenho dezessete anos e ainda não fiz nada na vida. Bela porcaria que eu sou. Tenho que trabalhar.
Wilson: Tão velho, né, Bia?
Bia: Um velho. Um velho.
Wilson: Tão velho...
Bia: Eu dizia, Meu filho, mas será pos... Não. Você se lembra que ele se enfiou lá no fundo do quintal? Porque ele estudou. Ele aprendeu todas as línguas sozinho. Sozinho. Alemão...
Wilson: Italiano.
Bia: Inglês. Italiano... e francês e espanhol. Tudo. Tudo. Sozinho. E lia o que ele precisava. Mas ele tinha o convívio.
Wilson: Com o pai...
Bia: Bom, além do pai, especificamente nessa área da arte, com o Haroldo e o Augusto de Campos. Ele tinha muita amizade com eles. Aí, esse trabalho, mais ou menos, que eu fazia com vocês, o Haroldo sempre teve e sempre tem até hoje com toda a moçada... É... Arnaldo Antunes... O Caetano Veloso. O Lívio... O filho do Augusto... Mesmo a Giulia Gam... Uma porção de artistas. Tudo. Eles se juntam sempre para discutir. Lívio teve uma excelente escola de Modernismo com ele. De uma excelente... Tanto que... toda a idéia dele de música contemporânea surgiu desse trabalho com ele. E eu não sabia de onde é que vinha aquela música que o Lívio fez. Lembra aquela música que era... uma música totalmente diferente de tudo daquela época? Ele já era extremamente moderno naquela música...
Wilson: Eu lembro que para nós foi bem estranho... Eu lembro disso.
Bia: Lembra?
Wilson: Da estranheza... O que é que é isso?
Bia: Uma música mais esquisita... Ué, eu não tinha o direito de cortar. Eles achavam que tinha que fazer e tinha que fazer...Aliás, nunca, nunca eu podei nada por mim... Às vezes, eu até não gostava de alguma coisa, mas se todo mundo topasse... Se todo mundo achava que era aquilo, era aquilo e pronto, né? Agora, tinha uma, uma função minha, que era uma função que era unicamente minha: era a função de tocar o trabalho, de incentivar e de dar o acabamento. Essa é a função do diretor do teatro. De conseguir um todo naquele espetáculo. Isso era minha função. Isso eu tinha que fazer, né? Porque senão ficava tudo solto... não é?
Wilson: Isso eu lembro mesmo... Eu sou uma testemunha. É verdade o que você está falando. Porque a Pena e a Lei, foi você quem veio e alinhavou...
Bia: É.
Wilson:Você realmente fechou...
Bia: Isso.
Wilson: Ele, o Artur, ensaiava com a gente individualmente, algumas cenas. Só que ele nunca conseguia terminar o todo.
Bia: É...
Wilson: Aí foi quando, um sábado não sei quando, você veio... como você falou... já estava todo mundo assim... que o grupo ia acabar, não sei o quê... foi quando você levantou e...
Bia: Foi...
Wilson: ... e arrematou mesmo o trabalho... Eu lembro disso.
Bia: É, pois é. Fazer e encaminhar a coisa, né? Eu digo: um trabalho de tantos meses e ele não conseguia fazer, né?
Wilson: Eu até lembro do seu gestual... Eu nunca esqueço.
Bia: (Risos.)
Wilson: Eu sempre imito para todo mundo... Eu não vou nem imitar aqui para você.
Bia: (Risos.)
Wilson: É uma coisa assim de levantar... E subir, assim... Sabe aquela coisa tua?
Bia: (Risos.) É...
Wilson: Levantar. Vamos! E levantava esse pé assim...
Bia: (Risos.)
Wilson: Pra lá. Vamos, Zélia. Levanta...
Bia: (Risos.)
Wilson: Zélia era o teu Cristo...
Bia: (Risos.) É... a Zélia...
Wilson: O Cristo era a Zélia...
Bia: Não, porque a Zélia...
Wilson: As Pastorinhass...
Bia: Ai...
Wilson: Meu Deus... você pegava no pé dela, às vezes... Porque ela fazia assim...
Bia: Ela era meio para baixo, né?
Wilson: Aí você fazia: Zélia! Vamos, peito pra cima.
Bia: (Risos.)
Wilson: Ah, era tão engraçado, Bia...
Bia: Era engraçado. Era tão gostoso.
Wilson: Essa coisas, eu nunca vou esquecer... Você tinha um cabelão. E aquele cabelão... que você usava...
Bia: Aquele cabelão... que eu usava...
Wilson: Vamos, Zélia, pra cima!
Bia: É, tinha que... eu tinha que encarnar aquele negócio...
Wilson: Uma vez ela pegou um fogo... Eu nunca esqueço... numa apresentação e aí ela ia para um lado e depois ia para o outro...
Bia: (Risos.)
Wilson: Lembra disso?
Bia: É, de vez em quando, tomava uma caninha... Uma coisinha...
Wilson: Mas uma coisa que nosso Grupo nunca teve... droga.
Bia: Droga, não.
Wilson: A gente nunca teve.
Bia: Eu...
Wilson: Eu falo para todo mundo que eu conheço...
Bia: Mas era um dos princípios.
Wilson: A caninha, a gente tomava...
Bia: É...
Wilson: Antes de entrar... a gente sempre tinha uma caninha...
Bia: É... uma coisinha para dar uma incentivada...
Wilson: Para esquentar.
Bia: (Risos.)
Wilson: Mas droga... eu realmente... Vi uma ou outra vez...
Bia: É... Tinha, de vez em quando...
Wilson: Uma maconha... mas não era uma coisa assim... Sabe?
Bia: Natureza era o meu problema. Meu maior problema...
Wilson: Mas não era uma coisa assim... de vício...
Bia: Não, não era ssim...
Wilson: De droga... ou cocaína... essas coisas...
Bia: Eu fiquei muito triste porque eu não consegui fazer o Natureza...
Wilson: Bia... eu nunca vi cocaína...
Bia: Não... Eu também nunca vi cocaína, não. Eu nunca vi.
Wilson: Sabe, eu nunca vi.
Bia: Sabe, que eu, no meio teatral, onde o pessoal usa para chuchu, eu nunca vi cocaína. Eu também, não.
Wilson: No nosso grupo de teatro, não havia isso.
Bia: Nunca vi. Eu nunca vi. Eu tenho horror de droga.
Wilson: E o nosso teatro era... era sadio...
Bia: Era uma das propostas minha. Era isso. Era tirar os meninos da droga. Eu vivia dizendo isso. Tirar os meninos da droga. Não pode deixar os meninos na droga. E Natureza... Eu sabia que dava umas puxadinhas dele lá.
Wilson: Sim... Na praia quando a gente ia... Lembra?
Bia: Escondido. É. Uma coisa. Escondido mesmo.
Wilson: Tinha. Tinha...
Bia: O meu desafio era...
Wilson: Sabe onde eu fui provar?
Bia:... evitar que caísse na droga.
Wilson: Sabe onde eu fui provar?
Bia: Aonde?
Wilson: Nos Estados Unidos.
Bia: Nos Estados Unidos, é... Imagino.
Wilson: Que eu nem.... provei... Não...
Bia: Não... Não... O objetivo era isso...
Wilson: Mas eu poderia ter...
Bia: Poderia...
Wilson:... fumado com o Sér... com o Natureza...
Bia: Pois é...
Wilson: Mas não era... Não era...
Bia: Não tinha...
Wilson: Não era...
Bia: Não era necessário.
Wilson: Não era necessário.
Bia: Era justamente... esse era o objetivo pedagógico. Um dos objetivos pedagógicos meu, como professora, era esse. Evitar porque naquela época a meninada estava em peso caída na droga. Olha... eu me lembro que o Lívio e a Lucila diziam para mim: Mãe, eu não agüento meus colegas lá no Equipe. Eu não agüento aquela turma.... fica tudo de boca mole. Fuma e fica tudo largado. Não tem o que conversar. Não tem ânimo. Não tem nada. Eu não agüento essa gente. O Lívio parou mesmo de estudar... por causa disso.
Wilson: Mas eu não acredito que seria cocaína naquela época...
Bia: Não, não era cocaína, não.
Wilson: Era maconha.
Bia: Era maconha. Era maconha...
Wilson: A cocaína é uma coisa mais de agora.
Bia: É posterior, sim. No Rio, agora, é mais forte ainda, né? O tal do crack... Parece que tem um...
Wilson: Tem milhões deles aí...
Bia: É.
Wilson: Mas era uma coisa assim... uma coisa que eu defendo...
Bia: Essa era minha proposta...
Wilson:... com unhas e dentes o nosso trabalho. Que foi sempre coisa sadia. Pedagógica. E era de se descobrir como ser humano...
Bia: Claro. Esse era o grande objetivo que eu tinha na pedagogia Freinet. Quer dizer... Eu...
Wilson: Por que o Freneit, Bia? Você estudava Freneit?
Bia: Porque... Foi o seguinte: fui fazer...eu estava dando aula na São Marcos. Como professora da São Marcos, eu tinha que me inscrever na pós-graduação. E eu estava querendo mesmo. No início da década de 70, eu queria voltar à escola. Eu sempre estudei muito sozinha, mas achava que estava num momento que precisava ter uma reflexão junto com professores e tal e voltei... E eles exigiam... as coisas se casaram. Porque eu fui dar aula de francês e eles exigiam que eu voltasse à universidade para fazer a pós-graduação. E eu fui fazer. Eu fiz cursos interessantíssimos. Em francês e também eu me inscrevi na ECA, em algumas cadeiras da ECA. Por incrível que pareça, as cadeiras da ECA foram as piores que eu fiz. Foi um trabalho de um estruturalismo muito idiota que eu não gostei nenhum pouco, mas eu tinha que fazer, eram cadeiras a fim com o que eu escolhia, né? Eu pretendia fazer um trabalho sobre o Artaud. E eu estava estudando o Artaud, muito. E aí eu tinha que fazer a cadeira de francês, e então, na cadeira de francês, o meu orientador era professor de língua francesa e ele estudava um negócio lá, uma parte específica... que eu também aprendi muito: o problema da tradução. Com ele, aprendi muita coisa. E era um grande tradutor. Ele era uma pessoa... um português, um grande intelectual e também um homem de luta contra o Salazarismo... aqui no Brasil. Tanto que no dia que Portugal...deu... ele teve uma emoção tão forte que teve um... ele morreu, do coração.
Wilson: É mesmo?
Bia: É verdade.
Wilson: Você diz a Revolução dos Cravos?
Bia: Não. É. Foi na Revolução dos Cravos, foi. Ele estava no Brasil...
Wilson: Durante a revolução...
Bia: Muitos deles já tinham voltado para lá. Os portugueses que faziam uma espécie de resistência no Brasil, né? Eu acompanhava todo esse movimento de resistência porque Maurício participava da faculdade, tal. E a gente sabia de todas as essas coisas, né?
Wilson: Hã-hã...
Bia: Dos movimentos de resistência política ao Salazarismo, em Portugal. E um dos professores era muito nosso amigo. O Barradas de Carvalho. Era muito amigo nosso. Vivia sempre em casa. Os filhos eram muito amigos de Lívio e de Marcelo, tudo. E o meu orientador era ele, justamente. E o Lonait que era o professor da cadeira de francês, de literatura. E o Lonait tinha um objetivo de divulgar, como ele fazia parte do movimento Freinet na França, e ele veio para o Brasil para divulgar o movimento Freneit. A pedagogia Freneit. A militância do Lonait, do meu professor Michel Lonait, na França... a militância dele no Brasil era para a implantação da escola renovada através da metodologia Freinet. E o que encontrava muito eco no meio intelectual brasileiro, com todo mundo, o Paulo Freire... O Freniet. O que o Freneit fez foi fazer a mesma coisa, digamos, o que o Paulo Freire bolou no Brasil para os adultos, o método de alfabetização de adultos... a mesma orientação pedagógica... era a mesma orientação do Freneit, só que ele fez isso com relação a França. E com relação ao primário e ao secundário.
Wilson: Primário e secundário...
Bia:...e até a universidade porque o Lonait... A Inês também foi fazer a cadeira de francês porque nós éramos muito amigas, né? O Cabral era amigo de Maurício e ela vinha em casa... e como ela era professora de francês, nós discutíamos muito... A nossa amizade começou discutindo a questão pedagógica, como dar aula de francês... E ela vinha... e porque eu tinha mais experiência, e como ela estava começando depois de mim, ela queria saber e como... e aí nós duas fizemos o curso com o Lonait. E foi aí que eu comecei a estudar pedagogia Freneit... foi justamente o momento em 74... que eu me formei antes... voltei para escola. Aí , eu digo, bom, agora vou ajuntar as duas coisas: eu estudava o Artaud e estudava o Freneit. O Freneit era um professor que participou da Primeira Guerra Mundial e ficou muito... ele saiu da frente de batalha porque ele ficou com um problema seríssimo no pulmão. Ele foi ferido em batalha e ele ficou... E aí ele voltou a ser professor porque desde que ele saiu da escola normal, ele já foi direto para a luta. Aí veio aquela sensação de horror da Primeira Guerra Mundial, todo mundo pensava: o que é que nós professores fizemos para pertencer a um horror desses... Agora eu pergunto para você o que é nós fizemos, como é que a gente vai olhar para a cara dos nosso netos com essa barbaridade que está por aí, né?
Wilson: O que é que a gente fez, né?
Bia: O que é que a gente fez... O que é que a gente não fez, né, que eu me pergunto... Mas o Freneit perguntava isso sempre... Ele dizia... era uma coisa que marcou minha leitura dele... como é que nós vamos acabar com isso? Nós temos que mudar. A questão está na raiz, está na educação... Nós chegamos a fazer uma guerra tão violenta...
Wilson: A Primeira Guerra foi a pior...
Bia: A Primeira Guerra foi o estopim de tudo. Depois a Segunda Grande Guerra foi um horror total. Mas a Primeira foi o fim do fim, para uma mentalidade de muitos séculos depois... Então, ele começou a estudar... porque sair... ele não podia ir para a frente de batalha, botaram ele na escola. E chegou na escolinha... francês... os meninos queriam saber de tudo menos da escola, né? Bom, ele diz: Aqui eu não vou ficar com os alunos dentro da sala de aula. Além do que, ele tinha muita dificuldade de ficar dentro daquela sala de aula, fechada, que cheirava mal, tinha um banheiro fedido lá... Os meninos odiavam aquelas aulas.... O professor antigo... aquele tabalado... que descia do tablado, os castigos... isso e aquilo. Então ele fez toda uma aproximação com as crianças e foi criando uma mentalidade de pesquisa, de trabalho... No momento em que ele começou a emplantar o trabalho, eu justamente.... essa pedagogia renovadora que todos esses movimentos de renovação propõe, é a pedagogia do trabalho. Quer dizer, através do trabalho que você desenvolve o que te interessa, a sua personalidade se desenvolve, e você aprende realmente. Porque você tem interesse real em aprender! Então, você se dedica, você vai atrás... você procura, né? Quer dizer, era isto que era a base fundamental. Para mim, o Grupo Teatro-Circo tinha.. para todo mundo tinha um sentido pessoal... para mim, ele era --- por isso que eu digo sempre que ele era um trabalho pedagógico. Ele não era um trabalho. O meu objetivo com o Teatro-Circo nunca foi formar um grupo de teatro profissional, por exemplo. Se... se acontecesse de virar, seria porque as coisas se desdobrassem.... mas o meu objetivo nunca foi esse. O meu objetivo, dentro da escola, era um trabalho de desenvolvimento da personalidade de vocês... de desenvolvimento sadio você mesmo acabou de dizer aí, né? é essa a idéia, longe do... do ódio que naquele momento vivia o país e que o país vivia um momento de absoluta repressão, você não podia abrir a boca porque você ia preso... Era uma Ditadura que maltratava a população e os filhos, e as crianças, todo mundo crescia naquela sacarrolha... O objetivo desse trabalho era desenvolver o máximo possível a personalidade dos estudantes, entende? Naquilo que fosse realmente profundo para eles. Então, para vocês o teatro era um pretexto. Eu fazia todo um trabalho individual... que eu tinha o coletivo, e tinha o individual. Cada um de vocês eu trabalhava de uma forma... para poder fazer com que vocês se sentissem seguros, em primeiro lugar. Em segundo lugar, não se sentissem podados como seres humanos...para vocês sairem... naquilo... porque aquilo, a gente sabia, que era um momento que passava no país. Passa. Tudo passa. Tudo passa. Para não deixar que vocês tivessem uma estrutura de espinha dorsal quebrada pela Ditadura. Que vocês tivessem a pujança de realizar as coisas da vossa vida. A felicidade da vossa vida de uma forma, a mais profunda possível, fossem e se descobrissem as afinidades. Por exemplo, eu me lembro que a Marli era uma pessoa que entrou lá querendo... meio que assim dando uma de quem quer ir para o estrelato da Globo, aquelas coisas, aquelas ilusões que a meninada tinha... Tinha muita gente que tinha isso. Muita gente entrava no Teatro-Circo por causa da Globo... Porque naquela época, a Globo era a única coisa... era uma coisa....
Wilson: E que continua...
Bia: E continua. Hoje em dia menos... um pouco mais... Mas continua aí...
Wilson: Ela manda ainda...
Bia: Ela manda. Manda muito. Oh, sim. Manda... Mandam todos, né?
Wilson: Esse Marinho aí ainda manda
Bia: É manda. Manda muito. Oh... Mas naquela época...
Wilson: Era mais...
Bia: Era uma coisa extremada. Só ela, né? Só televisão. Porque tudo era abafado. Não existia. Existia um ou outro canto que no país funcionava. O resto não funcionava. Era tudo podado. Tudo cortado. As pessoas morriam de medo... a gente chamava na rua... não sabia com que você está falando... você não falava... ninguém falava. Não se podia reunir! Não se podia renuir... Aí, bom... a gente começou...
Wilson: Não sei se eu te contei isso... Mas...
Bia: Não...
Wilson:... no Emygidio, eu já estava no teatro, já estava no Teatro-Circo...
Bia: Hã...
Wilson: Uma vez, eu e uns amigos, nós estavamos na frente do colégio. E uns meninos estavam fumando cigarro normal...
Bia: Sei...
Wilson: Tinha meninas e meninos.... Tipo terminou a aula, a gente...
Bia: É.
Wilson: ...vai matar um pouco mais de hora lá fora... Parou um camburão. Eu nunca esqueço disso. Parou um camburão e um homem com uma metralhadora...
Bia: (Ar de medo e surpresa)
Wilson: .. em cima da gente assim...
Bia: Ai, Nossa Senhora Aparecida...
Wilson: Aí, eles colocaram a gente na parede. E não tinha ninguém. Sabe aqueles momentos que não tem mais ninguém?
Bia: Sei. Ninguém, é.
Wilson: Some todo mundo... Só aquele momento que... congela, né?
Bia: É.
Wilson:... que fica congelado ali.
Bia: Isso.
Wilson: Eu lembro que ele botou a mão em tudo, procurando coisa...
Bia: Droga, né?
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